Publicado em 24/08/2026
9 minutos de leitura · Por Daiana d'Ávila, ceramista — Ateliê Daiana D'Arte, Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis
Como é feita uma peça de cerâmica artesanal: do barro ao forno
Neste artigo
- Da argila bruta ao barro pronto para trabalhar
- Modelagem: a peça ganha forma
- Secagem: o tempo que ninguém vê
- Primeira queima: a biscoita
- Esmaltação: cor, textura e proteção
- Segunda queima: onde tudo se transforma
- Tabela resumo: as 6 etapas do processo
- Perguntas frequentes
- Ver peças do ateliê
Toda peça começa como um punhado de barro sem forma. O que acontece entre esse primeiro toque e a peça pronta na sua mesa é um processo de semanas, não de minutos, e é exatamente esse tempo que dá à cerâmica artesanal a identidade que a industrial nunca vai ter.
Quem compra uma peça pronta raramente vê o processo por trás dela. Mas entender as seis etapas que transformam argila crua em cerâmica de alta temperatura muda a forma como você olha para o objeto: cada xícara, prato ou vaso carrega dentro de si dias de espera, duas passagens pelo fogo e o julgamento de quem trabalhou a peça em cada etapa.
Este guia explica, etapa por etapa, como nasce uma peça de cerâmica artesanal no Ateliê Daiana D'Arte, do barro bruto até a peça pronta para uso.
Da argila bruta ao barro pronto para trabalhar
Antes de qualquer modelagem, a argila precisa ser preparada. Esse processo, chamado de amassamento (ou wedging, no termo técnico em inglês usado internacionalmente por ceramistas), tem duas funções: remover bolhas de ar presas na massa e uniformizar a umidade em todo o bloco de argila.
Bolhas de ar são inimigas silenciosas da cerâmica. Se uma peça vai ao forno com ar preso dentro dela, essa bolha se expande com o calor e pode literalmente explodir a peça durante a queima, arruinando não só aquela peça como, em fornos compartilhados, possivelmente outras peças ao redor.
É por isso que o amassamento, mesmo sendo uma etapa invisível para quem só vê o produto final, é uma das mais importantes do processo. Um ceramista experiente sente, pelas mãos, quando a argila está no ponto certo de trabalho.
Modelagem: a peça ganha forma
É aqui que a maioria das pessoas imagina o processo começando, e é a etapa mais visível, mais fotografada e mais associada à ideia de cerâmica artesanal. Existem diferentes técnicas de modelagem, e a escolha depende da peça:
- Torno de oleiro: Técnica usada para peças com simetria circular, como xícaras, tigelas e vasos. A peça gira enquanto as mãos aplicam pressão controlada para erguer as paredes.
- Modelagem manual (pinch): A argila é moldada apenas com os dedos, pressionando e afinando as paredes a partir de uma bola de argila. Técnica mais antiga da cerâmica, usada em peças pequenas e orgânicas.
- Placas e rolos (slab building): A argila é achatada em placas e depois cortada e unida, técnica comum para peças angulares, pratos e formatos que o torno não produz.
Independente da técnica, essa é a etapa onde a autoria da peça se define: a espessura da parede, a leveza ou robustez da forma, os detalhes de acabamento na superfície ainda úmida. É também a etapa mais demorada em tempo ativo de trabalho, entre 30 minutos e 2 horas por peça, dependendo da complexidade.
Secagem: o tempo que ninguém vê
Depois de modelada, a peça precisa secar, e essa é a etapa mais subestimada de todo o processo, porque não envolve nenhum trabalho manual visível, apenas espera. Mas é também uma das etapas mais críticas: secar rápido demais é a causa mais comum de rachaduras e quebras antes mesmo da peça chegar ao forno.
A água presente na argila precisa evaporar de forma lenta e uniforme. Se a superfície seca mais rápido que o interior, a tensão gerada racha a peça. Por isso, peças recém-modeladas costumam ser cobertas parcialmente com plástico nos primeiros dias, forçando uma secagem gradual.
A peça passa por um estágio intermediário chamado "ponto de couro": ainda levemente úmida, firme o suficiente para ser manuseada, mas ainda maleável para ajustes finos, como alisar bordas ou adicionar alças. Só depois disso ela seca completamente, processo que leva de 3 a 10 dias, dependendo da espessura da peça e da umidade do ambiente.
Primeira queima: a biscoita
Com a peça completamente seca, ela vai ao forno pela primeira vez, em um processo chamado de queima de biscoito (ou biscoitada). Nessa etapa, o forno atinge cerca de 900°C ao longo de 8 a 12 horas, seguido de um resfriamento lento, geralmente de um dia inteiro.
Esse primeiro fogo transforma quimicamente a argila: ela deixa de ser um material que se dissolve em água e se torna cerâmica de verdade, porosa e ainda sem cor definida, mas já resistente o suficiente para ser manuseada com segurança. É por isso que peças "biscoitadas" têm aquele tom bege ou terracota característico, antes de receber qualquer esmalte.
"A primeira queima transforma a argila em cerâmica. A segunda transforma a cerâmica em peça acabada."
Duas passagens pelo fogo, cada uma com uma função diferente no processo.
Esmaltação: cor, textura e proteção
Depois da biscoitada, a peça recebe o esmalte, uma mistura de minerais em suspensão líquida que, ao ser queimada em alta temperatura, se transforma em uma camada de vidro sobre a superfície da cerâmica. É o esmalte que define a cor final, a textura ao toque e a impermeabilização da peça.
A aplicação pode ser feita por imersão (mergulhando a peça no esmalte), com pincel (para efeitos mais controlados e detalhados) ou por aspersão. Cada método produz um resultado visual diferente, e é comum combinar mais de uma técnica na mesma peça para criar profundidade e variação de tom.
Esmaltes com acabamento metálico, como ouro, prata ou cobre, exigem cuidado especial: eles não devem ir ao micro-ondas depois de prontos, diferente de esmaltes minerais comuns.
Segunda queima: onde tudo se transforma
A etapa final, e a mais decisiva. A peça esmaltada volta ao forno, agora a uma temperatura muito mais alta: entre 1.200°C e 1.300°C, o que os ceramistas chamam de "cone 6 a 10" na escala técnica de medição de queima. Essa queima dura de 10 a 14 horas, seguida de um resfriamento lento de até dois dias, para evitar choques térmicos que rachariam a peça já pronta.
É aqui que o esmalte vitrifica de verdade, funde e se transforma em uma superfície de vidro sobre a cerâmica, definindo a cor final, o brilho (ou fosco) e a textura ao toque. É também nessa temperatura que a argila atinge sua densidade máxima, o que explica por que a cerâmica de alta temperatura retém mais calor e é mais resistente do que peças queimadas a temperaturas mais baixas.
O resultado dessa segunda queima nunca é 100% previsível, pequenas variações de posição dentro do forno, de espessura do esmalte e de fluxo de calor produzem resultados levemente diferentes em cada peça. É exatamente essa imprevisibilidade controlada que torna cada peça artesanal única.
Tabela resumo: as 6 etapas do processo
Para visualizar o processo completo de uma só vez, a tabela abaixo resume cada etapa, o que acontece nela, o tempo aproximado e a temperatura envolvida.
Somando as etapas, o tempo total entre o primeiro contato com a argila e a peça pronta para uso costuma ficar entre 2 e 3 semanas. Para peças personalizadas ou sob encomenda, esse prazo pode se estender para até 6 semanas, considerando a fila de produção do ateliê.
Perguntas frequentes sobre o processo da cerâmica artesanal
As perguntas abaixo são as mais comuns de quem quer entender melhor o que está por trás de cada peça artesanal antes de comprar ou encomendar.
Você merece o original.
Cada peça Daiana D'Arte passa por essas seis etapas, do barro cru à peça pronta, no ateliê de Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis. Nenhuma sai do forno igual à outra.
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Sobre a autora
Daiana d'Ávila
Ceramista com ateliê em Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis. Trabalha com cerâmica de alta temperatura, técnica que resulta em peças mais densas, resistentes e com maior retenção térmica.
Fundadora do Ateliê Daiana D'Arte, onde cada peça é feita à mão, com autoria assinada.
Instagram: @daianadarte · daianadarte.com.br
